(aquela fotinho queima-filme pra acabar)
(aquela fotinho queima-filme pra acabar)
Engraçado como tem coisas que pedem descrição. Ou vai ver que eu uso isso como desculpa mesmo, pra começar a escrever. Hoje na hora do almoço eu tinha uns trinta minutos livres e saí pra andar um pouco, conhecer as ruas ao redor. Embora não tenha encontrado nada que me prendesse a atenção (nos comércios), foi bom sentir o cheiro da rua – ainda que a rua cheire sempre a uma cidade que não pára. Veja só onde é que eu fui tentar acalmar a minha cabeça.
Reparei que algumas árvores não se contentam com o espaço que lhes é dado, e com muita razão: cimento nunca foi chão adequado pra árvore. Então elas fecham as mãos, aquelas raízes que parecem mãos forçando o obstáculo urbano e formando relevos pela calçada. Mostrando que não estão nem aí pra frente toda cheia de vidros e brilhos e rotina plástica dos prédios comerciais. Ainda bem. Ainda bem que pelo menos as árvores têm coragem de expressar esses gritos de insatisfação.
O dia é um daqueles que você pode andar só de camiseta ou com um casaco, que não vai se sentir incomodado por algum exagero climático. O céu, uniforme. De uma cor que não chega a ser cinza, mas que vai dormir ensaiando um azul tímido, tenho certeza. Já reparou como venta nesses dias e o chão fica cheio de minifolhinhas? O mais engraçado é elas não se contentarem em colorir o chão e decidirem se acomodar então, no cabelo de algumas pessoas.
Às vezes eu me limito a olhar pela janela aqui do prédio, sem ir à rua. Hoje eu teria feito isso mais uma vez, já que não tinha o consolo de pensar que “pelo menos está um dia bonito de sol”. Mas sabe, é bem melhor descer e ver que o dia está lindo sim, porque afinal nossos olhos e nosso corpo podem captar tudo ao redor, e tudo é tanta coisa e tanta gente tentando viver, que se eu disser não haver nada interessante dentro de mim e fora daqui é quase blasfêmia.
O meu coração ficou leve, porque eu quis pensar em coisas que o fizessem ficar, e porque eu não pensei em todas as outras que “ainda vão dar certo” ou que “eu ainda tenho que terminar”. Eu não pensei em planos. Nem em ontens.
Eu queria te passar essa calma, ainda que ela provavelmente seja passageira. Queria te passar a força que tanto falam pra eu te dar e que eu ainda não sei onde comprar. Queria te proporcionar um daqueles momentos em que a gente tem certeza do que é felicidade. Mas eu não sou suficiente.
Eu pensei então em dizer que te amo, te comprar umas flores e jogar umas minifolhas no seu cabelo.